Fisgado na primeira tragada
Descobertas revelam que o cigarro vicia de forma surpreendentemente rápida. Pesquisas acenam com novos tratamentos para libertação do vício por Joseph R. DiFranza
ADOLESCENTES podem se tornar dependentes de cigarro poucas semanas após começarem a fumar. Um estudo mostrou que, em média, os jovens fumavam apenas dois cigarros por semana quando os primeiros sintomas da dependência se manifestaram.
Durante minha especialização em medicina da família estudei a dependência de nicotina sob a óptica conservadora. Os médicos havia muito acreditavam que as pessoas fumam basicamente por prazer ? e que, com o tempo, se tornam psicologicamente dependentes. A tolerância aos efeitos da nicotina estimula que se fume cada vez mais. A dependência física começa quando o hábito atinge uma freqüência preocupante ? cerca de cinco cigarros por dia ? e a nicotina passa a estar constantemente presente no sangue, em geral, depois de anos e milhares de cigarros fumados. Algumas horas após o último cigarro o fumante dependente passa a apresentar os sintomas da abstinência de nicotina: inquietação, irritabilidade e dificuldade de concentração, entre outros efeitos. Segundo esse conceito, as pessoas que fumam menos de cinco cigarros por dia não são dependentes.
Eu me valia desse princípio quando deparei com uma paciente daquelas que nunca leu um livro teórico. Durante uma consulta de rotina, uma adolescente contou sobre sua dificuldade para largar do cigarro, mesmo tendo começado a fumar havia apenas dois meses. Pensei que ela fosse um caso à parte, uma rara exceção à regra sobre o lento desenvolvimento da dependência, que levaria anos. Mas isso atiçou a minha curiosidade e decidi entrevistar estudantes de um colégio próximo sobre o hábito de fumar. Fiquei intrigado com uma garota de 14 anos que afirmou ter feito duas sérias tentativas frustradas para deixar o cigarro. E ela havia fumado somente uns poucos cigarros por semana, durante dois meses. A descrição de seus sintomas durante o perío-do em que ficou sem fumar lembrava o relato queixoso dos meus pacientes que fumam dois maços por dia. O rápido aparecimento desses sintomas contrapunha grande parte do que eu achava que sabia sobre nicotina. E, quando fui verificar essas informações em sua fonte, constatei que tudo o que havia aprendido não passava de especulação.
Perda de Autonomia
Em 1997, quando comecei essa pesquisa com meus colegas da faculdade de medicina da University of Massachusetts em Worcester, nosso primeiro desafio foi criar ferramentas confiáveis para detectar os primeiros sintomas da dependência, tão logo surgissem. Para mim a característica decisiva da dependência é a perda da autonomia, quando o fumante descobre que deixar o vício exige um esforço enorme ou provoca um grande desconforto. Para detectar essa perda, criei o Questionário de Avaliação ?Fisgado pela Nicotina??? (Honc, na sigla em inglês). Uma resposta positiva para qualquer uma das perguntas listadas indica que a dependência teve início. Atualmente, aplicado em 13 idiomas, esse questionário é o meio mais confiável para medir o grau de dependência de nicotina. (E as perguntas podem ser adaptadas facilmente ao estudo de outras drogas.)
Aplicamos o questionário repetidamente a centenas de adolescentes durante três anos. O resultado mostrou que o rápido aparecimento da dependência sobressaía. O mês seguinte ao primeiro cigarro era, de longe, o mais propenso ao início da dependência; todos os sintomas do questionário, incluindo o desejo incontrolado pelo cigarro e as tentativas frustradas para largá-lo, foram constatados durante as primeiras semanas do hábito. Em média, os adolescentes fumavam apenas dois cigarros por semana quando os sintomas apareceram. Os dados refutaram a crença popular e ofereceram informações valiosas sobre o início da dependência. Porém, quando divulguei essas descobertas, em fevereiro de 2000, alegando que alguns jovens apresentaram sinais de dependência depois de fumar um ou dois cigarros, fui considerado ?o professor que não havia lido os livros com atenção???.
Muitos leigos me disseram, com base em suas experiências, que eu estava no caminho certo. Mas, ainda que muitos cientistas acreditassem em mim, não se mostravam dispostos a arriscar sua reputação e admitir publicamente seu apoio. O ceticismo foi geral. Como a dependência poderia começar tão rapidamente? Como explicar os sintomas da abstinência em fumantes que não apresentam níveis estáveis de nicotina no sangue? A confirmação viria depois, quando grupos de pesquisadores liderados por Jennifer O?Loughlin, da McGill University, Denise Kandel, da Columbia University, e Robert Scragg, da University of Auckland, na Nova Zelândia, replicaram todas as minhas descobertas. Até o momento, mais de uma dezena de pesquisas confirmam os efeitos da abstinência de nicotina entre fumantes novatos. Entre os que sofreram os sintomas da dependência, 10% os sentiram em até dois dias após o primeiro cigarro, e de 25% a 35%, no primeiro mês. Em uma extensa pesquisa com jovens neozelandeses, 25% manifestaram os sintomas depois de fumar de um a quatro cigarros. O aparecimento prematuro dos sintomas nos questionários respondidos indicava uma chance 200 vezes maior de os jovens passarem a fumar diariamente.
Esses resultados levaram ao questionamento de como a nicotina presente em um único cigarro seria suficiente para estimular o cérebro a permitir a dependência. Estudos recentes com animais de laboratório revelaram que a exposição a doses altas e crônicas de nicotina ? o equivalente a um ou dois maços por dia ? estimula o aumento no número de neurônios receptores com grande afinidade por nicotina. Autópsias de fumantes humanos revelaram aumento em 50% a 100% nesses receptores no lobo frontal do cérebro, no hipocampo e cerebelo. Convenci Theodore -Slotkin, da Duke University, a determinar a exposição mínima necessária à nicotina para provocar aumento nos receptores, a chamada regulação crescente (up-regulation). Nos dias subseqüentes sua equipe administrou pequenas quantidades de nicotina a ratos ? o equivalente a um a dois cigarros ? e constatou, no segundo dia, aumento de receptores no hipocampo ? envolvido na memória de longo prazo. A seguir, Arthur Brody e seus colegas da University of California em Los Angeles descobriram que a nicotina de um cigarro é suficiente para ocupar 88% dos receptores de nicotina do cérebro. Embora desconheçamos o papel do aumento da regulação crescente de receptores na dependência, essas pesquisas tornam psicologicamente plausível que adolescentes desenvolvam sintomas da abstinência em apenas dois dias após seu primeiro cigarro.
Joseph R. DiFranza é clínico geral da faculdade de medicina da University of Massachusetts, nos Estados Unidos. ??vido opositor da indústria do tabaco, há 25 anos DiFranza vem empreendendo esforços para impedir que os produtos dessas companhias sejam vendidos para crianças; e sua pesquisa e seu apelo à Comissão da Câmara de Comércio Federal Americana resultaram na proibição da veiculação de propagandas com o mascote dos cigarros Camel. DiFranza recebeu patrocínio da Pfizer para apurar se a teoria da dependência do cigarro justifica a eficácia dos medicamentos para deixar de fumar.

