O tempo que nos integra ao mundo nos desintegra socialmente e culturalmente?
Nossa cultura, ainda que muito jovenzinhos, era a de familiarmente morarmos próximos e nesse próximo também construirmos nossas pequenas e grandes amizades frequentando as casas uns dos outros, os portões, as calçadas e por que não as ruas. Tínhamos o mesmo verdureiro, a mesma venda com a caderneta aberta por sermos reconhecidos como necessários clientes (nossos pais e avós). O dentista atendia a toda nossa família e o farmacêutico nos indicava os melhores tônicos.
Existiamos com nome e sobrenome e pertenciamos a um grupo de pessoas que podia em grupo ir ao cinema, à matinê do carnaval e aos bailinhos pró-formatura.
Ah, se éramos ricos? não! apenas existiamos e éramos cidadãos sem que os teóricos da educação precisassem nos dizer que éramos cidadãos. Mesmo que fora da escola, cumpriamos as regras do jogo e as monitorávamos para que fossem cumpridas.
Ah, saudades? Não. Apenas estamos cansando dessa rotina de ser “cidadão”.
Cidadão!!!!
Cuidar dos nossos velhos, cidadãos que nos levaram às matinês de fevereiro e que hoje esquecem de seus rostos nas curvas do Alzheimer.
Cuidar dos nossos jovens que se perdem na esquina do desemprego e se acham no traço da droga lícita ou ilícita.
Cuidar das nossas crianças que deixaram de ser cidadãs e que temos que lhes ensinar o caminho de volta.
Cuidar de nós para que consigamos chegar à aposentadoria sãos e salvos dos desmandos da direita revolucionária.
E ainda ser feliz!
Feliz dentro de nossos questionamentos não respondidos ao longo de nosso trajeto já percorrido de talvez 3/4 do seu real destino ou um pouco menos ou um pouco mais. Isso não sabemos.
Feliz pelos momentos de algumas parcerias verdadeiras realizadas em épocas e décadas diferentes, mas feitas.
Feliz por assistirmos à evolução de ser “cidadão” sem sermos cooptados pelo sistema que nos tirou a cidadania e nos quer devolvê-la sem ao menos ter aprendido a sê-lo.
Feliz por em um momento de desesperança matinal ter superado tão instantaneamente a apatia através do poder das palavras que a verdadeira conquista de ser cidadão nos permite.
Feliz por saber que os “cidadãos de papel” precisam de ansiolíticos para dormirem pelo medo de entregar a cidadania ao verdadeiro cidadão.
Feliz por saber que neste mesmo horário em que muitos acordam pensando em como farão para sobreviver diante da impossibilidade de consolidar o poder, muitos acordam e sabem que apesar de ter nossos velhos, jovens e crianças para cuidar, há uma cidadania que não se perde por não nos deixarmos cooptar: a cidadania do saber.
Saber do amargo do morango e sua boa relação com o coração, do vermelho das rosas e sua representação do fogo, saber que eles sabem que nós sabemos e isso os intimida.
Saber que o “saber” envolve conhecer e que conhecer significa vivenciar e o vivenciar ninguém nos tira, nem quem nos tenta cooptar, nem quem deixamos imaginar que nos tenha cooptado.
Esse texto parece ter enigmas e tem. Só o compreenderá totalmente aquele que sabe do sabor do morango, da cor da rosa e do calor do coração.
Abraços, nesta manhã de março em que as águas ainda não chegaram e o calor aquece a mente e os corações dos que pensam. Geanete

