O Sabugueiro – Renato Ladeia
O sabugueiro serve para fazer uma infusão infalível para febre, diziam os antigos vizinhos, principalmente aqueles de origem interiorana. Muitos conhecimentos sobre as plantas que herdamos, não apenas dos povos nativos, que me recuso a chamá-los de indígenas, mas também dos próprios europeus e povos orientais. Está o chá e o café que confirmam isso. Mas vamos voltar ao pé de sabugueiro que reinava majestoso nos fundos do meu quintal.
Na primavera dava flores brancas em cachos que era a alegria das abelhas que circulavam por ali.
E muitas vezes acordava com as palmas de algum vizinho com alguém na família com problemas de saúde que vinha buscar as milagrosas folhas ou flores do sabugueiro para uma infusão. Meu pai abria a janela e autorizava o vizinho a entrar no quintal e pegar a vontade. Da minha cama ouvia os passos apressados passando pelo corredor externo da casa. Ficava pensando preocupado sobre quem estaria doente àquela hora da noite. Poderia ser a Maria, minha vizinha, que tinha os olhos de ressaca e que encantava meus hormônios de nove ou dez anos de idade.
No dia seguinte cuidava de saber quem era e com a notícia de que era algum bebê, ficava mais aliviado.
Mas o sabugueiro povoava também o meu imaginário de menino, nas brincadeiras de Tarzan, o herói das selvas, idealizado por Edgard Rice Burroughs, que mais tarde vim, a saber, que era inspirado no mito do bom selvagem de Jean Jacques Rousseau e outros iluministas. O homem nasce bom e livre, a sociedade o corrompe e o escraviza. Durante muito tempo defendi esta idéia, mas hoje, já calejado, não consigo acreditar na tal pureza do ser humano.
Mas voltemos ao sabugueiro, minha árvore de infância. Nela eu subia para avistar o horizonte que parecia longínquo como o fim do mundo que terminava com o arco íris. Nela eu também fugia para escapar das palmadas de minha mãe que era implacável quando fazia alguma traquinagem. Mas era como a maior árvore da floresta da ??frica Central que eu avistava todos os inimigos perigosos, principalmente os canibais que passavam sob os meus pés e não conseguiam me ver. Mesmo os gorilas enfurecidos com todo o faro de que dispunham não conseguiam perceber a minha presença. E assim, passavam as tardes mornas de verão num sonho sem fim.
Passamos longos anos juntos, eu e o sabugueiro, numa cumplicidade de fazer inveja. Ele sabia que eu estava sempre por lá, mesmo que os afazeres escolares e domésticos não deixassem muito tempo para nossos encontros. Mas o tempo passou e comecei a perceber que a árvore não era tão grande e tampouco mágica e aos poucos fomos nos distanciando um do outro. Até que um dia soube, sem nenhuma lágrima ou tristeza, que o velho sabugueiro morrera de velhice. Talvez tenha ficado deprimido e foi aos poucos se esvaindo pela falta de companhia ou talvez, o que é bem mais provável, tenha chegado o seu tempo.
Hoje com os cabelos brancos e a idade pelejando para vencer as minhas resistências, lembro-me melancólico do velho sabugueiro, a árvore da cura e dos meus devaneios de criança. Ambos ainda estão presentes na minha alma e ainda luto arduamente para preservá-los.
Renato Ladeia
19/02/2007 – SBC

