Ao pai Salvador, esse era seu nome.

Sarau - 06/08/2009

Reeditado para 2009 por Geanete Lavorato
Estava em minha mémória uma imagem do meu pai…
pai.GIF há mais de 30 anos não o vejo, abraço ou converso por algumas horas à mesa na hora do almoço, quando, infelizmente hábito que batalho para afastar do meu cotidiano, sempre pedia um café fresquinho a minha mãe e passava a contar sobre as muitas ações já feitas pela manhã e as que ainda ia providenciar no período da tarde no seu trabalho. Quem foi esse grande batalhador anônimo que entre muitos rostos era mais um? Mas mais um muito especial em nossa casa. Quem era?
nunciata.GIF(clike) Era um neto de imigrantes italianos que por parte paterna, ele vinha de uma família não tão numerosa como foram as famílias da época e por parte materna de uma família menor ainda. Sua mãe, dos Patrice’s, tinha só uma irmã, Maria Patrice. Talvez nem seja correta essa forma de escrita, uma vez que até hoje não encontramos os documentos da minha nona.
Ela, a avó Anunciata, contava que havia nascido em um navio já em águas brasileiras, pelo Espírito Santo, por volta de fevereiro de 1900… Contava por muitas vezes as histórias vivenciadas nos cortiços do Bexiga, bairro tradicional de São Paulo – Brasil, onde passou sua infância e juventude. Contava também que minha bisavó teria morrido de cancrô, doença que persegue seus descendentes… não sabemos ao certo.
Pelo outro lado, o paterno, meu pai herdou todas suas características físicas e emocionais. Dos Lavorato teve a vontade ferrenha de vencer. Vencer para esses netos de imigrantes era constituir uma família, dar estudo às crianças e se possível ganhar o suficiente para suas reuniões e festas familiares infindáveis. Interessante que apesar de ele ser o mais velho de 7 irmãos, ele e seus irmãos, com uma exceção, tiveram um casal de filhos. Isso há 50 anos atrás. Essa família já tinha consciência de que se quisesse criar um pouco mais confortavelmente seus filhos não podia ter quantos filhos a natureza lhe enviasse… e já usava algum tipo de anticonceptivos.
Mesmo com estas lembranças vivas não consegui trazer da minha memória imagens do meu pai a não ser as que revivi de registros fotográficos.
Interessante essa mente que registra a foto, mas não registra o real. Algo tão incompreensível quanto a própria saudade, misto de querer estar mesmo sabendo-se da impossibilidade de se estar.
Os fortes apelos comerciais referindo-se aos dias dos pais nos faz lembrar mais intensamente dessa ausência-presente.
E nessa ausência-presente, fico inerte como em muitas outras situações parecidas onde o querer estar não depende da nossa vontade, da nossa força. E sem ação para conseguir diferenciar entre a saudade e a falta de, penso que o amor de um pai é tão igual ao de uma mãe em nosso coração quando esse pai foi dedicado, amoroso, presente e forte.
Para nós, meninas, ele é o mesmo regaço que é o de uma mãe para os meninos.
É a sua imagem, que muita das vezes, procuramos em nossos futuros encontros. Procuramos também sua lealdade, sim a lealdade de um pai nada tem a ver com a deslealdade que ele possa ter tido com nossa mãe. A relação deles é instantânea e causal, enquanto que a nossa é visceral e factual. Seus braços fortes e acolhederores que nos abraçava quando nossa mãe ralhava conosco é o que procuramos em nossos futuros parceiros e muitas vezes não encontramos porque seus braços se agigantavam pela nossa pequenez. Mas crescemos e já não há braços tão fortes que possamos nos sentir tão protegidas e amadas. E nessa confusão de sentimentos e lembranças, pelo tempo que se foi…muito tempo…me perco entre o real e o imaginário.
Concluo que o celular, o notbook, a câmara digital, tudo isso que está na mídia não nos faz menos solitárias ou mesmo menos saudosas…
O melhor presente seria poder dizer hoje o que não foi dito em nossa adolescência libertadora, em nossa juventude contestadora… Na nossa maturidade não menos libertária e nem menos contestadora saberíamos e poderíamos melhor dizer do nosso amor fraterno, sincero, transparente e eterno que sentimos por ele.
Vivo em carne e osso no nosso meio, esse seria talvez o seu grande presente e o nosso também, com certeza!

1 comentário
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