Recebi por e-mail, o texto que transcrevo abaixo em uma exposição clara do amigo Moacyr sobre o que acontece com os familiares das pessoas desaparecidas por este Brasil de território ”inalcansável” e de um povo inegavelmente “fraterno”.
Realço aqui a importância dessa solicitação que salta aos olhos de quem precisou dos serviços de comunicação quando do desaparecimento da Sula e viu o quanto é falho, por não dizer quase inexistente. Não há conexão entre os órgãos de atendimento da saúde quer física quanto mental, mesmo nestes tempos de modernas e importantes tecnologias para tal.
Quando você precisa de uma informação como neste caso sobre se houve a entrada de algum paciente com as características da Sula que no dia do desaparecimento estava sem seus documentos e mesmo sem raciocínio claro, uma vez que largara o tratamento médico-terapêutico abruptamente, você tem que ter gente disponível para estar pessoalmente buscando as informações em todos os locais que acolhem pessoas encontradas nesse estado, ou mesmo acidentadas ou mesmo agredidas fisicamente. Enfim, é uma via crucis infindável que na maioria dos casos recai na impossibilidade da busca real pela falta de comunicação e de conhecimento sobre todos os lugares existentes.
Mas faltou nos dizer, Moacyr, como começarmos uma campanha para o desenvolvimento e implantação de um sistema ùnico real de comunicação entre os diferentes órgãos que podem e devem intervir em tais situações, como: Delegacias comuns e especializadas em desaparecimentos, Hospitais de doenças físicas e mentais, Albergues, Ongs, etc…
Desde os primeiros dias do desaparecimento da Sula em 16 de setembro último que amigos ao lado dos seus familiares fazem o caminho da via crucis e com certeza não percorreram nesses 2 meses do seu desaparecimento um décimo dos lugares possíveis de a terem acolhido sem documentos e sem memória passada.
Aguardamos de sua parte, Moacyr, o início de um movimento via internet e/ou mesmo via logradouros com assinaturas (1 milhão de pessoas) para levarmos a Brasília e seu novo parlamento e fazermos, sim, de Sulamita e com certeza de várias famílias que se juntarão a nós, uma bandeira pela criação de uma rede de banco de dados de pessoas desaparecidas com conecção em todo o País.
Abraços fraternos! Geanete
Abaixo, os 2 últimos e-mails do pai da Sulamita:
Pedido de socorro com sugestão para intervenç ão em rede da saúde mental por Moacyr Pinto
Amigos(as) e companheiros(as),
Temos não procurado fazer da procura pela minha filha Sulamita nenhuma “bandeira de luta”, contra ou a favor disso ou daquilo, mas a oportunidade que vislumbramos, a partir da colaboração de algumas pessoas que vêm participando dessa fantástica rede de apoio que veio se formando e que tem servido para realimentar cotidianamente as nossas esperanças, que nos ajudaram a ter acesso aos endereços, nem todos eletrônicos, da Coordenação Nacional de Saúde Mental, das respectivas coordenações estaduais e de muitas unidades de atendimento locais existentes no país, estamos fazendo um pedido especial pela Sulamita aos responsáveis por toda essa Rede, mas também, como vocês poderão constatar, sugerindo a criação de uma espécie de SERVIÇO NACIONAL DE BUSCA ÀS PESSOAS DESAPARECIDAS, que envolva não apenas os setores de Saúde Mental dos governos federal, estadual e unidades de atendimento localizadas nos municípios, mas também as esferas dos Direitos Humanos, policiais, setores de comunicação (especialmente as redes públicas de rádio e tv), etc, etc., firmando um PROTOCOLO COM NORMAS SERVIÇO COM ESSA FINALIDADE.
Na procura pela Sulamita aprendemos muitas coisas, uma delas é que o problema do desaparecimento é “democrático”, por atingir igualmente pobres e ricos, etc, etc, mas é mais cruel com aqueles(as) que não recebem o apoio que estamos recebendo, graças à nossa própria história de vida. Por isso, peço-lhes mais essa ajuda: que cada um(a) (pessoas e instituições) dentro da sua possibilidade e capacidade de influência, que acreditar qe essa nossa iniciativa poderá, para o futuro, ajudar a facilitar a busca às pessoas desaparecidas em nosso país de maneira mais humana e mais eficaz, que nos ajude a fazer essa idéia andar!
Com um abraço mais uma vez agradecido, em meu nome e da minha família,
Moacyr Pinto
Caros senhor Pedro Gabriel e equipe (com cópia para as coordenações estaduais de Saúde Mental e núcleos de atendimento identificados em todo o país),
Meu nome é Moacyr Pinto da Silva, Sociólogo e Educador aposentado, ex-Secretário Municipal de Educação em São José dos Campos – SP, onde resido, nos anos de 1993 e 94. Estou vivendo um drama pessoal e familiar, com certa repercussão na imprensa e na sociedade, para o qual estamos desesperadamente precisando de ajuda, fato que não nos impede de tentar colaborar para que outros casos idênticos ao nosso possam ser solucionados e, para isso, entendemos que a intervenção da rede de atendimento da Saúde Mental em todo o país poderá ser fundamental, minorando o sofrimento de muitos e aperfeiçoando e, porque não dizer, em muitos casos reduzindo a necessidade de atendimento para muitas pessoas que às vezes estão apenas precisando reencontrar o caminho de casa.
Minha filha Sulamita,de 32 anos, com formação superior quase completa, mãe de um filho de 6 anos e que vinha levando uma vida relativamente normal nos últimos tempos está desaparecida desde o dia 16 de setembro de 2010, quando, em surto, muito provavelmente por ter parado bruscamente de tomar medicamentos anti-depressivos – ou de tê-los misturado com “drogas para emagrecimento rápido” – foi vista entrando em um “Monte”, desses para os quais algumas seitas evangélicas orientam seus fiéis para orar, de onde deve ter saído de alguma forma, porque, depois de 5 dias de intensas buscas em suas matas, a polícia especializada de São Paulo considerou que ali ela não estava mais, nem viva, nem morta; fato que aumentou as nossas esperanças de encontrá-la com vida. O monte fica em São Bernardo do Campo – cidade onde ela vinha vivendo já há 2 anos – nas margens da Via Anchieta.
Meu pedido quase em desespero, em meu nome e em nome da minha família, é de ajuda da Coordenação Nacional de Saúde Mental, juntamente com as coordenações estaduais e os serviços locais, no sentido de tentar localizar e identificar a minha filha. Nosso pedido especialmente dirigido para vocês se baseia no fato de que, em nossa observação, a maioria das pessoas desaparecidas, em particular as adultas, estão com problemas mentais, muitas vezes com ocorrência de perda de memória ou equivalente, fato que dificulta o reencontro com a família.
Não sei explicar tecnicamente, mas meu raciocínio, quero crer, é claro e facilmente compreensível. Nesses casos, temos sabido que, por vias as mais diversas, as pessoas que têm sido encontradas, a maioria o são pelo caminho do Setor de Saúde, especialmente da Saúde Mental.
Sendo assim, no caso particular da procura pela Sulamita, estou repassando para vocês duas fotos, em forma de cartazes, em word, que poderão inclusive ser impressos, um apenas do rosto, com ela numa situação de aparente depressão, por isso talvez mais próxima da sua realidade atual; e outra com diversas pequenas fotos onde ela poderá ser identificada, COM ESPECIAL ATENÇÃO PARA A PRESENÇA DE UMA GRANDE TATUAGEM COLORIDA NAS COSTAS, marca essa que certamente ela não perderá com o desgaste da rua.
Não consegui obter o endereço eletrônico da maioria das unidades locais de Saúde Mental do país, por isso, peço-lhes encarecidamente, que nos ajudem a atingi-las, pois são elas que lidam com a realidade do dia a dia.
Como SUGESTÃO MAIS AMPLA, gostaria de motivá-los a tomar a iniciativa – juntos aos organismos policiais, Secretarias de Direitos Humanos dos governos federal, estaduais e municipais, com apoio da imprensa, etc, etc, – no sentido de se criar uma REDE PERMANENTE DE BUSCA DAS PESSOAS DESAPARECIDAS em todo o país. Mais um dos nossos “problemas invísiveis”, que têm contribuído para aniquilar a existência de tantas famílias por todo o país, independente das condições sociais, ideologias, crenças, etc, etc. Temos visto mães, pais e irmãos procurando seus entes queridos há 15 anos, sem ao menos serem percebidos pelas autoridades e por quem não vive o problema.
Pedindo desculpas pela tom desesperado e quase apelativo desse pedido de socorro, fico aguardando, com meus familiares o retorno de V. Senhorias.
Desde já muito obrigado!
Moacyr Pinto da Silva