A hora sagrada da palavra
por Ge-silícia
O silêncio é tão poderoso quanto as palavras.
Vocês já viveram o instante em que isso se tornou realidade?
As grandes alquimias são feitas no silêncio da palavra, do dia, da cidade?
Sejam elas alquimias científicas ou alquimias amorosas.
O silêncio é imperativo.
O silêncio é a resposta negativa a um ato indesejado.
O silêncio é a ausência das interferências nefastas.
É no silênio, ausência das palavras pronunciadas, que se descobre o olhar, as mãos, a mente, o coração.
É desse silêncio que os poetas se apoderam criando imagens para escrevê-las em rimas.
É nesse silêncio que os sábios se aprofundam no que é, tornando universal a sabedoria.
É da ausência das palavras pronunciadas que o escritor alinhava, com palavras, as experiências vividas no imaginário e leva ao leitor o desenho perfeito da cena ausente.
É dessa ausência de palavras pronunciadas que costuro o que vai n?alma neste inverno de manhãs ensolaradas.
Sempre sinto o tempo e ele sempre está presente em meu silêncio permeado de registros porque como uma sílicia que sou ? biotipo silícia ? ele, o tempo é parte de mim.
Em uma manhã de garoa fina e intermitente, minha mente também se torna cinzenta e quase incapaz de produzir. Meu corpo fica letárgico como em estado de hibernação. Fico como um urso polar se preparando para seis meses dentro da toca: sem comida, sem caça, sem brincadeira de rolar no chão.
Nesse tempo de que faço parte, a palavra que não diz dos amigos, a palavra que pode não chegar aos que escrevo, me inquietam.
As ondas das palavras nos atingem e nos modificam. Assim, a ausência dessas ondas de comunicação também nos inquieta e nos move a indagar: onde estão?
Será que em alguma nova galáxia, a dos sonhos?
Tenho que tomar alguma nave para alcançá-los, abraçá-los, vivê-los?
Mas o que é um sonho?
Algo além de viagens inter-galáxias com ausência dos sons das palavras, mas onde abraço ou simplesmente vejo, onde choro ou rio de felicidade por estar entre amigos? Onde fico e vou sem a menor necessidade de pedir licença para fazer parte de suas vidas? Onde participo de suas reuniões, de suas festas, de suas criações e de suas intempéries sem que eles tenham como me furtar essa felicidade?
Creio ser o grande enigma que as palavras não conseguem registrar. Esses momentos de encontros em espaços de energia onde a vida também se faz, livre. Um espaço de todos. De ricos e pobres. Poetas e cientistas. Crianças e velhos. Amantes e inimigos.
Espaço intergalático dos sonhos possíveis e impossíveis, onde com ou sem consentimento penetramos nos sonhos de todos; em suas vidas. Mesmo no silêncio das palavras pronunciadas, os sabemos, amigos.
Um amigo Sulfúrico ao ler este texto vai pensar que sua amiga Silícia entrou na fase do absurdo.
Uma amiga Calcárea vai refletir as palavras aqui registradas e, provavelmente, até nos responda.
Um amigo Fosfórico, após leitura breve e ligeira, deixará para pensar em outro dia ou mesmo fazer em cima do escrito uma crônica ou mesmo um ensaio poético.
Enquanto isso, o primeiro amigo Sulfúrico já estará em algum outro espaço a se deliciar com o abraço fraterno e real de outro amigo menos insano.
É a forma de sentir e ser de cada um de nós.
É nossa relação com o real e o imginário.
É o mundo inter-galático de um biotipo Calcárea ou de um Silícia X o mundo palpável e previsível de um Fosfórico ou Sulfúrico.
Geanete

