Muitos Brasis, muitas mentes e corações.
O ar inquieto faz rodopiar montanhas papéis jogados na calada da noite pelas ruas da São Bernardo do Campo,
uma das primeiras vilas deste estado gigante em tamanho, em ?punjância? e em contínua e crescente desigualdade social.
Os panfletos estampados em cores partidárias levam imagens de tantos quantos sonharam em ocupar uma vaga de “representante” do povo de um país que um dia já deve ter sido um continente.
O vento carrega e renova a energia estancada por esses candidatos a nossos representantes também estagnados no tempo e no espaço. Nem todos, mas quase todos. Foi apenas uma varredura preparando o espaço para uma grande carga d?água que logo desabou sobre nós, colaborando para a limpeza do espaço porque no asfalto ficou uma grande massa de papéis molhados que se amontoaram reciclando rostos, idéias, palavras, promessas.
Zeus enfurecido trincou os céus com seus raios e a terra com seus estrondos aterradores. Seria uma noite de calma não fosse o ?tempo e o vento? nos lembrando que há uma ordem maior, cósmica, que está ficando infernizada com os desmandos daqueles que deveriam estar trilhando o caminho da fraternidade, da ética, da igualdade e da superação da mesmice milenar.
De que falo? O que passa nesta minha mente, parte da mente suprapartidária porque supra-individuais somos? Falo de um tempo que se repete sob as vestes do ?rei nu?. Lembram deste conto? O rei transita nu por seus súditos e seus súditos pensam ser menos dignos porque não conseguiam ver suas roupas de fios de ouro?… O rei continua nu. Pobre de espírito, de conduta, de representatividade da grande maioria de pessoas que transitam alucinados a procura de não sei o quê, nem para quê. Apenas caminham como uma grande massa, assim como os papéis que amanheceram amontoados e desmanchados, prontos para uma reciclagem, sem formas e imagens, sem propostas e sem partidos. Poderia ser a representatividade da Anarquia. De um tempo sem mandatários e sem mandados. Sem tropa do exército na rua e sem a criança traficando a morte e o tempo.
Poderia só ser. Poderia.
Este dia se iniciou com o tempo e o vento anunciando a proximidade da uma grande revolução, se não política, terráquea. Parece haver pouco tempo para acordarmos e lembrarmos que o planeta não suportará por muito tempo nossa destruição em massa, nossos quase sete bilhões de pessoas sugando o pouco oxigênio disponível pela redução desmedida de nossas matas, absorvendo suas águas e exterminando suas terras. Esta mistura de idéias e imagens nasce após a vivência de mais um dia incomum.
Como mera espectadora no pátio da escola, o vi infetado de pessoas vestidas com um avental azul, onde se lia FISCAL. Lá se misturaram a imagem do povo depositando, quer dizer digitando em nossas modernas urnas eletrônicas, o número que representará sua desesperança. Por horas, ali estática, com meus pensamentos a mil, escutei vozes das pessoas que passavam por todos como se mecanicamente foram cumprir a lei que determina suas presenças naquele dia que outrora já foi palco de muitas esperanças e mudanças na forma de administração e representação dos nossos ideários. Alguns poucos arroubos ficaram por conta de encontros entre pessoas do mesmo bairro que há tempos não se viam, ou dos ?fiscais partidários? que sorridentemente recebiam seus possíveis eleitores. Na rua, cabos eleitorais contratados tentavam discretamente burlar a lei e ganhar algum voto… Foi só mais uma eleição. Mais um tempo de disputa de desigualdades onde prevalece o ideário burguês e a demagogia com os menos possuídos.
O tempo continua muito chuvoso. É segunda-feira e ele, o tempo, continua tentando limpar o espaço sujo pelo irreverente ser que ocupa seu chão, nós, os seres humanos, humanizados?
A tela dos jornais continua mostrando o desfile dos exércitos nas ruas, dos seus projéteis misturados aos do tráfico pesado dançando entre alguns olhares assustados e muitos outros complacentes, do nosso povo desnudo que sem rumo anda apressadamente em busca de algo que não sabe e não diz porque pensa que saúde se busca no prontos-socorros, segurança no IML, alimentos no lixão, conhecimento nos programas eleitorais gratuitos e cidadania no uso da urna eletrônica.
Há uma revolução em curso, silenciosa, implacável, mas com certeza socialista: a revolução do tempo e do espaço, onde todos indistintamente sofrem pela omissão ou pela opressão; pelo descaso ou pela irreverência. Onde todos se igualam com ou sem regimes espoliantes.
Nesta segunda-feira, 06 de outubro de 2008, dia chuvoso, cinzento, silencioso, pós- eleição de representantes no governo da burguesia econômica e cultural, com respeito às exceções, eu escrevi um pouco do que re-leio no cotidiano da nossa não menos perigosa e intrigante cidade de São Bernardo.
Geanete
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