Nossas velhas?

por Ge-silíciaHoje, ela levantou com os cabelos engraçados?estava parecendo os de um pica-pau? mas e se fosse um pica-pau? Estaria voando por entre florestas, cachoeiras, sol, vida? Então esse deve ser o problema?não ser um pica-pau. Teria sido até famosa. Personagem principal da alegria de milhares de crianças da nossa geração. Puxa! Seria internacional.
Mas ela não é um pica-pau?
Sentou-se à mesa e fez sua primeira refeição acompanhada de uma pílula de alívio vendida por vendedores de alívio… um doril. Não fez! Seu fígado não aceitou a primeira refeição de mais um dia em seu pesado fardo que parece lhe ser estes últimos anos, desde que perdeu quase toda a visão por uma degeneração na mácula. Uma degeneração que atinge milhares de velhos e não contente está degenerando olhos mais jovens e incautos de cinqüentões e cinqüentonas.
Um adendo: em MTC, a visão se relaciona diretamente a energia Jing do Fígado e essa energia é a energia mais sútil que comanda e alimenta nosso organismo em seus vários corpos: físico e sútil. Poderíamos compará-la, só compará-la, a um hormônio. A energia Jing é fruto do metabolismo entre a energia Qi, a energia Essencial da vida - aquela com a qual nascemos - e a energia Nutritiva, fusão das energias adquiridas pelos alimentos e pela respiração.
Minha velha passou mais uma noite em claro em busca de uma luz que lhe indicasse que tudo valeu a pena. Em seus 81 anos, provavelmente, metade deles se dedicou a procurar o sono perdido em noites longas e intermináveis de angústia por algo que nunca saberei o que era. Devem ser segredos d?alma reveláveis só àquele que se olha no espelho e vê a si.
Talvez foram noites de insônia a procura de um espaço em que se sentisse a rainha e estivesse com seu rei – falecido aos 53 anos de vida – sob armaduras mágicas que os defendessem do cotidiano, dos insucessos, das imagens ameaçadoras, da sociedade que os policiava?Tantos talvez.
Não consigo acessar seu inconsciente para saber quantas vezes ele gravou e regravou a imagem do impossível. Só o impossível para justificar dentro da lei de causa e efeito tanto desalento no final da vida terrena.
Vendo-a tão frágil em seus cabelos brancos de dores e ais, imagino o que deixei de lhe dar nestes últimos anos em que juntas compartrilhamos o caminho?
Foram e são sucessivos momentos que sobrevêm como grandes e temerosas avalanches arrasando o construído, soterrando histórias, vaidades, anseios.
E seus velhos? Como estão? Encontro pelos corredores da história muitos que estão chegando aos 80, 85 anos, mas não vejo quase nada que possa me dizer que conseguimos aumentar a espectativa de vida e darmos vivas a esse evento. Com raras exceções, nossos velhos que chegaram em suas quase nove décadas de vida, chegaram de forma a nos mostrar o que não é qualidade de vida. Chegam com escleroses, degenerações, insucessos, desesperanças.
E nos percebemos nessa rota sem volta, o quanto não temos o que lhes oferecer em nossa cultura imediatista e excludente. Conseguimos excluir a criança, o jovem e o idoso entre tantas outras exclusões.
Arrebatamos a nós a fatia do bolo que nos garante o momento e, ainda que discutamos o futuro, o deixamos para o outro e nesse tempo de individualidade com exclusão cremos que nós e os nossos não estarão sob esse domínio da pílula, do esquecimento, da dó, da improdutividade, do estar sem ser.
Para nos fazerem crer que a exclusão é puramente imaginária, mostram imagens daqueles que apesar de tudo mantêm o moral alto, numa aparente esperança inquebrantável? porém continuamos sem conseguir acessar seus inconscientes.
E os exemplos são tão vulneráveis quanto vulnerável é nosso apêndice de vida sem políticas e cultura de respeito aos nossos velhos.
Onde levá-los? Onde aninhá-los? O que realmente eles precisam? O que os deixou tão sofridos e tão sem histórias? Foi a falta de poder aquisitivo, é a nova cultura do apartamento, da internet, do trabalho, da distância? O que os determina a esse inquebrantável silêncio?
Nossos velhos caminham sobre caminhos que desconhecem e nós tentamos equilibrá-los nessa ponte entre o desconhecido e o inominável apagar das luzes.

Hoje acordei com a sensação de que algo está se rompendo entre nós, entre o ser e o estar, entre a vida e sua transposição. Deve ser o fog são bernadense. Tomara que seja!

Ge-silícia

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