Não morre mais – Pedra Filosofal

Dietoterapia, Saúde - 06/04/2009

Este é o alquimista Art Kunkin, que acredita ter descoberto o elixir da longa vida 30.01.2009 | Texto por Bruno Torturra Nogueira

Pedra filosofal

Os anos 60 chegavam ao fim, e a linda onda de liberdade, como bem definiu Hunter Thompson, estourou na praia e retrocedeu. Reagan assume a Califórnia, Nixon, a Casa Branca, e a cultura do ego brota para tomar as décadas seguintes. E foi na alvorada dos anos 80, em uma missão jornalística, que Art, um cético fundamentalista, viu coisas que mudaram seu rumo para sempre. Reportando um curso de alquimia em Salt Lake City, ele teve uma verdadeira experiência psíquica. Para checar, repetiu a dose, algo como entrar na mente e no corpo de uma pessoa em outro país, e deu certo. Daquele dia em diante, Art foi viver na cidade e trocou a redação politizada por laboratórios e infindáveis compêndios de alquimia.
Pausa: alquimia não é química. É uma tradição milenar, praticada por sociedades de todos os continentes, que, muito antes da separação sistemática das ciências, interpretava o mundo unificando química, astrologia, física, biologia e espiritualidade. Para o alquimista, não faz sentido separar matéria e espírito. A busca é entendê-los e aprender a manipulá-los. Na base do estudo e da intuição, penetrar na essência das substâncias e da vida para criar a pedra filosofal. Despertar material e espiritualmente a cura definitiva.
Uma visão em desuso, sem dúvida, e pode ser natural que nosso tecnológico mundo a veja como obsoleta, fossilizada. Ao contrário pensa Art, já que fundir disciplinas e tentar medir o etéreo são as pedras filosofais da mais avançada ciência contemporânea.
Radioatividade, ora bolas
É 10 de setembro. Enquanto conversamos no refrescante trailer de Kunkin no deserto, o Grande Colisor de Hálons faz seu primeiro experimento no subsolo suíço, 10 bilhões de euros para a mais complexa aventura científica da história. Milhares de cérebros brilhantes querem descobrir do que é feito o universo no fundo do fundo. Art dá de ombros. É que, sozinho em seu trailer, tem um laboratório bem mais humilde (um pote), mas uma pergunta mais crucial. Talvez a única dúvida que assola toda santa criatura viva, seja uma ameba, o Michael Jackson ou o cientista na Suíça: como diabos não morrer?
O palpite sagaz de Art Kunkin tem o espírito daqueles óbvios invisíveis. Literalmente invisível, no caso. Alquimistas falam em uma substância, um fogo sagrado, capaz de provocar transmutação. O budismo fala em prana, uma energia misteriosa no ar que, se absorvida da maneira correta, harmoniza o corpo e traz saúde. A National Geographic de 2004 mostra uma caverna rica em urânio onde idosos passam temporadas para curar todo tipo de mazela. Um documentário sobre a bomba atômica de Hiroshima revela que muitos civis nos arredores da explosão sentiram-se extremamente saudáveis pelos anos seguintes ao cogumelo nuclear. Noves fora, radioatividade, ora bolas! Tudo é uma questão de dose, como postulou Paracelso, o pai da farmácia, ele mesmo um alquimista.
A maça, sempre ela
De volta ao pote. Maçãs, uma tela de metal e pedras com urânio. Empírico que só ele, Art está há mais de um ano comendo suas frutas radioativas sem acompanhamento médico. Resultados? 80 anos de idade, não tem fios grisalhos. Uma cabeleira vasta que, assim como as unhas, cresce duas vezes mais rápido do que antes de começar tal dieta. Sente-se com mais energia para trabalhar, para dar conta da nova namorada, décadas mais nova. Juntando uma cultura pra lá de enciclopédica em 15.000 livros de sua bem organizada biblioteca, articula psicanálise, física, política e budismo em um só pensamento, atribuindo às mitocôndrias celulares a chave da longevidade. ?O truque é colocar dentro do corpo energia extra, vinda da radiação, para simplesmente interromper o envelhecimento. É claro que precisamos pesquisar, e muito. Mas, por enquanto, estou sozinho nisso.?
Mas vamos lá, Art. confessa, você tem medo da morte?
?Olha, não é medo o que eu tenho. Sou um meditador, me aprimorei muito nessa vida, e sei que posso, de alguma forma, reencarnar. Sei que a morte é uma libertação por um lado. Sem dúvida não é por medo que quero viver para sempre.? Então explica, Art. ?Tenho 80 anos e vivi tanta coisa. Deu tanto trabalho acumular esse conhecimento de que me orgulho, de achar mais equilíbrio na vida e na mente. Demorou tanto para me aprimorar como homem e como alma que quero aproveitar isso por muito tempo. Simplesmente não é justo morrer logo.? Dá pra discordar?
“DEMOROU TANTO TEMPO PARA ME APRIMORAR COMO HOMEM E COMO ALMA QUE NÃO É JUSTO MORRER LOGO”
Pregando no deserto
Dia seguinte, 11 de setembro. Democratas e republicanos fazem jogo de cena, ?unidos? para homenagear os mortos no WTC em 2001. Art nem liga: ?São dois partidos de direita?. Prefere esquecer por uns tempos a política a que tanto se dedicou nas décadas passadas. Até porque, em última análise, a promessa da vida eterna é a revolução mais radical que Art poderia provocar na sociedade. O golpe mais duro que ele pode dar em seu tão malquisto capitalismo.
Como sabe disso, o incansável publisher de provocações tem um projeto na manga. Quer articular o lançamento da Immortality ? The magazine, uma revista 100% dedicada à pesquisa e às conseqüências de uma vida prolongada ad infinitum. Mais do que a ciência, é a política que vai ter que dar jeito no mundo quando os cemitérios ficarem, mesmo, às moscas.
?Tudo vai ter que mudar. Como o dinheiro será acumulado, como será o nascimento de novas pessoas, a idéia de país.? Nosso mundo é, conscientemente ou não, erguido sobre a expectativa da morte.? Silêncio do repórter. ?Não é utopia, isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Só que eu preciso correr mais do que os outros, porque já tenho 80 anos?, justifica. ?Sei que muita gente pode me achar esquisito por fazer isso, e estou pensando em aumentar um pouco mais a dose das frutas, mas eu tenho que ter pressa?, diz antes de se despedir e voltar para os estudos em seu trailer no deserto de Joshua Tree, aquela terra dura, seca e incrivelmente fértil para as criaturas que sabem, misteriosamente, permanecer vivas.

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